Encontramos a menina por acaso, no caixa de uma loja. E aí, como é que está sua mãe? – perguntou a minha. Está bem, quer dizer, indo, né?- respondeu ela. -Sempre tem aquela tia que fica tocando no assunto, e daí ela fica triste, lembra, chora, mas quando não se fala nele até que ela está melhorando.
A menina havia perdido o pai havia alguns dias, e logicamente, a tristeza de sua mãe devia-se a isto. Partiu jovem, não sei a idade exata, mas arrisco que ainda não tinha quarenta. Faleceu por negligência médica, mais um absurdo que já está virando rotina neste país. Tinha apendicite, e diagnosticaram como virose, uma semana depois, quando resolveram fazer alguns exames mais aprofundados, descobriu-se a tal da apendicite, mas o pobre homem já estava todo esculhambado por dentro e não havia mais o que fazer.
Olhava pra ela, participava da conversa entre ela e minha mãe sem falar nada, apenas uma participação de olhares e atenção. Não sabia o que dizer, fiquei sem ação, com pena, e pensando “Meu Deus, se fosse comigo eu acho que não iria agüentar”.
As duas continuavam conversando, com frases curtas, leves, fala baixa. Não havia fila no caixa, logo, não havia motivo para pressa. - Ainda está todo mundo dormindo junto na sala, aquela história – continuou. Lembrei imediatamente de quando assaltaram minha casa. O alarme fora estragado devido a alguns temporais, era um domingo, lá pelas 14h, chegamos de um churrasco, e havia visita. O ladrão que estava dentro de casa, entrou imediatamente dentro do carro, onde estava o ‘motorista’, e se mandaram, junto com a nossa TV da sala, e algumas bijuterias que pensaram ser jóias em seus bolsos.
Analisando a situação, não foi nada perto do que podia ter acontecido. Só levaram a TV e estragaram nossa porta, e isso o seguro cobriu. Mas e a sensação de invasão, impotência, medo, vulnerabilidade, quem é que cobre? Ninguém.
Mesmo assim, estamos todos bem, TV nova, alarme mais do que consertado, vindo junto com cerca elétrica, fechaduras reforçadas, e nada de madeira, porta de ferro. Mas e a menina? Aposto que ela preferia estar dormindo na sala, todo mundo junto, por outro motivo, talvez até mesmo o que eu tive.
As notícias que saem nos jornais, na televisão, e até mesmo o que é mostrado na novela, estão chegando cada vez mais perto dos meus olhos, e meu medo só tende a aumentar. Quando a Luciana, de Maneco se acidentou achei o cúmulo do absurdo. Porque diabos vou querer assistir essa tristeza, esse drama, uma vez que seria bem melhor uma novela ‘normal e feliz’. Pra quê por isso em rede nacional, porque temos que assistir isso? – pensava eu.
Acontece que há pouco tempo meu padrinho, que andava de moto, pegou no sono, por conta da diabetes, durante uma curva, caiu, e está paraplégico. Ele, sua mulher (minha dinda) e meus pais são amigos há muitos anos, desde jovens, e estamos todos muito abalados. A ficha não caiu ainda, pra ninguém. Todo aquele drama que eu assisti a Luciana passando na novela está acontecendo aqui, do meu lado. E eu me ponho no lugar dos filhos dele, encho o olho de lágrimas, e penso: “Meu Deus, se fosse comigo, com o meu pai, eu acho que não iria agüentar”, e depois me entrego a minha aflição e desando a chorar.
O que estou querendo dizer, é que coisas, que algum tempo atrás, com toda a minha querida inocência e despreocupação de criança, eu achava que só aconteciam nas novelas, ou só se passavam nos jornais, coisas que jamais chegariam perto de mim, estão tomando cada uma, seu pequeno espaço ao meu redor, mesmo que não me afete profundamente, mas estão ali, para me fazer pensar, refletir, e perceber que tudo isso é normal, e não acontece só com aquela mulher chorando na capa do jornal, ou com um personagem da novela. Hoje, um pouco mais madura, e sendo cada dia um pouco mais realista, penso: “Meu Deus, se for comigo, não sei como, só sei que vou ter que aguentar”.
Foto: Ana Diniz |
Foto: Ana Diniz |

4 comentários:
fiquei emocionada ja sou tua fã
Nossa. Você está escrevendo MUITO bem. É bom ver uma estudante se tornando escritora, é bom ver uma menina se tornando mulher. Esse pensamento que te acomete, vem rondando minha cabeça nesses últimos anos. E essa frase que você termina o texto resume também o que penso: não sei como, mas, se acontecer, vou TER que aguentar. É a maturidade chegando...
É lindo o texto, minha querida.Uma realidade assustadora que nos rodeia, mas que, na medida do possível, devemos olhar muito mais além...com o olhar para o horizonte, que é onde nasce o sol.Muita força e muito amor pra ti, minha linda.
EU JURO QUE VOU LER ESSE TEXTO ATÉ O FIM DESSA SEMANA!
(só pra ti saber que eu bato cartão aqui). hfudihfui
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